segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Mudanças

Desculpa pela ausência no mês passado. O Blog ficou meio deixado de lado pela aparência de novos projetos. De fato o que eu percebi foi que o “sistema” que tenha exposto aqui, está maduro o suficiente para receber um tratamento mais extenso. Portanto, os próximos posts, e eu espero que eu os retome rapidamente, serão na realidade parágrafos desse texto por vir.

Enquanto isso eu os convido a visitar um outro blog no qual estarei postando:
http://conservadorismoemdebate.blogspot.com

segunda-feira, 17 de março de 2008

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Esboço de um Sistema

Segue um esboço dos argumentos pelos quais seria justificada a hipótese do sistema circular de transcendentais que é a minha hipótese de fundo nas minhas investigações daqui. Algumas das conexões podem parecer meramente lingüísticas, e outras apenas metafóricas, mas é por isso que o chamo apenas de um esboço. Eu defendo este esboço, apesar de sua fragilidade, pois intuitivamente as conexões conceituais nele apresentadas são fortíssimas.

Comecemos com o primeiro modo de realidade que conhecemos, que é a realidade fenomenal, aquela que se faz presente na experiência sensível. Esse é o campo do aparecer. Ele é nitidamente um campo transcendental: ele não determina nada mas é um meio dentro do qual todas as coisas podem se manifestar: deus se manifesta em milagres, a pessoa nos seus atos, as estruturas na ordem visível.

Consideremos agora o momento de determinar algo pelo aparecer. O que é aquilo que realmente aparece, que por-si é um fenômeno? É um ser, é algo que possui uma subsistência própria. Isso contrasta com o fenômeno que tem uma subsistência apenas em virtude de ser o correlato da consciência e que desvanece junto com ela, como uma imaginação.

Ser, então, seria o segundo transcendental na ordem do conhecimento. Tudo que realmente aparece tem um ser. A dualidade entre forma e suporte é manifestada exemplarmente pelo ser que permeia toda nossa linguagem sob a forma da cópula e ao mesmo tempo pode ser substantivado quando dizemos que algo é um ser.

Mas o ser enquanto uma forma geral de determinação é uma determinação do que as coisas são. Aquilo que realmente é um ser é a resposta a uma pergunta do tipo “O que é isso?”. “Isso” no caso só poderá ser algo que cai sob um conceito ou uma forma. Assim o transcendental do ser é estruturado pelo transcendental do logos.

Tudo que é, possui uma forma, uma razão, um conceito. O conceito pode ser tanto um objeto intencional, na medida em que todo ser exemplifica e anuncia os conceitos sob quais ele cai, ou o conceito pode ser uma intenção que determina outro algo. Mas o que é determinado pelo conceito? O que é por-si conceitual, lógico? Ora, é claramente a verdade, que é a norma de toda lógica. A verdade, pela sua própria realidade, é imediatamente coerente e apreensível pelo conceito.

Esboçar o que seja a verdade é, para mim, algo muito difícil. O que seria a verdade enquanto um modo concreto da realidade? Só posso conceber isso com metáforas de luz: como se ver a realidade nesse modo fosse a ver iluminada por uma luz tão forte que entrasse em todo buraco de toda coisa e a revelasse em todos seus detalhes. Toda realidade é uma espécie de atualidade, mas a verdade parece ser isso de forma eminente.

Mas o que é aquilo cuja realidade envolve ser verdadeiro, que espécie de realidade entra para a luz, passa para o ato? Bem, seria a ação. Na ação algo desdobra o que ela realmente é, se exterioriza e revela. Mas precisamos ser mais específicos: que tipo de ação? Será que com isso nós queremos dizer que todas as coisas podem ser vistas como manifestações de potências ocultas? Não, de maneira alguma. As coisas se verificam na ação, elas são confirmadas na sua verdade, elas revelam ser aquilo que elas pretendiam ser. A ação em questão é a ação de constantemente reconhecer as coisas na sua verdade. Ela é ação dentro de uma comunidade humana, ação dotada de sentido e que responde ao sentido.

A ação ou a alteridade entra, portanto, como o quinto modo concreto da realidade partindo do aparecer. A ação precisa ser uma forma vazia de determinação, sob pena de cravarmos uma fossa entre o mundo da comunidade e nosso mundo interior, povoando a vida de todos nós de segredos inconfessáveis por princípio.

Agora, o que é por-si uma ação, qual é o objeto de determinação de uma ação? Ora, naturalmente um vivido da consciência. Temos um preconceito natural que ação manifesta principalmente apenas aquele vivido que chamamos a vontade, mas isso não é verdadeiro, todo vivido se expressa em ações. A percepção de um obstáculo se traduz num desvio para evitá-lo, um pensamento se traduz num discurso, uma dor num grito, uma reflexão insistente numa hesitação. De fato, jamais seria possível que aprendêssemos o nome de qualquer estado interno se não o manifestássemos em ações.

Aquilo que por si age e se expressa é a consciência. Até mesmo a melancolia e o desespero profundos descritos por Kierkegaard se expressa, a diferença é apenas que esta expressão é muito mais articulada e sutil que um grito de dor ocasionado pelo ferrão de uma abelha. Agora, a transcendentalidade da consciência é uma tese clássica da filosofia e não só da filosofia moderna. Ela já está presente em Aristóteles quando ele diz que a alma é em certo sentido todas as coisas e em Santo Tomás quando ele toma essa compreensão da alma como a base para a inclusão do bem e do verdadeiro na sua lista dos transcendentais.

O que é aquilo que por si aparece à consciência, aquilo cujo aparecer à consciência pertence à sua própria realidade? Não é nada além daquilo que por si aparece, o domínio dos fenômenos, do aparecer. Com isso fechamos o círculo e chegamos ao nosso ponto de partida. A consciência antecede o começo, pois é dentro dela que se dá o conhecimento, mas ela é também seu último objeto, pois o cume da escalda do conhecimento é justamente o autoconhecimento.

Bem o post já está bastante longo. Ao longo dos próximos posts desenvolverei melhor as conexões que apresentei hoje e exibirei as “harmonias escondidas” às quais fiz referência antes.

Quaisquer dúvidas, pedidos ou sugestões, por favor, comentem.

Desfazendo a Confusão- III

No último post, chegamos a um esclarecimento fundamental: os transcendentais são os modos concretos da realidade. Contudo um problema ficou sem ser resolvido: como é possível que a realidade seja una se ela possui vários modos concretos?

Vamos primeiro demonstrar a necessidade da diferenciação dos modos concretos da realidade. A primeira determinação de algo, a determinação que torna possível que ele seja objeto de toda outra determinação é justamente a determinação ser real. Mas se assim fosse, a determinação “ser real” seria suporte de si mesmo, o que é um absurdo.

É preciso, portanto, que a realidade se diferencie em, ao menos, duas determinações, dois modos de realidade. Essas determinações serão, cada uma delas, suportes para todas as outras e também formas gerais de determinação. Elas não serão suporte de si mesmas porque cada uma será o suporte da outra. Assim essas determinações últimas formarão um círculo de determinações ultragerais. Isso é justamente o sistema circular dos transcendentais conectados via deduções transcendentais.

Esse caráter interconectado e interdependente dos modos concretos da realidade nos permite restaurar a unidade da realidade. O domínio único da realidade será o domínio daquelas cadeias de determinações que incluem todos os modos concretos da realidade. Por exemplo, uma pessoa real aparece, a sua aparência anuncia que ela é um ser, enquanto ser ela exemplifica uma forma, que por sua vez expressa uma verdade, que é verificada nas ações a seu respeito na comunidade que são expressões de vividos intencionais, que são justamente aqueles que apreendem a pessoa na medida em que aparece. A pessoa real não é algo para além dessas determinações, mas é justamente a unidade delas na sua remissão umas às outras.

Deste modo se reconstitui um domínio único da realidade dos quais todos os objetos são determinados por cada transcendental. Além disso há inúmeros objetos irreais que não são determinados por todos os modos concretos da realidade. Acerca destes falarei mais em outra ocasião. No próximo post, sairei deste reino de abstrações e oferecerei um esboço concreto das relações que conectam os transcendentais.

Quaisquer dúvidas, não hesitem em comentar.

Desfazendo a Confusão - II

A última transformação da noção de “transcendental” ocorreu no post A Realidade e Os Transcendentais, onde houve uma mudança decisiva de perspectiva onde os transcendentais deixaram de ser vistos como conceitos ultragerais e passaram a ser considerados como domínios de objetos. Nesse sentido, o transcendental consciência designa o domínio dos vividos, o transcendental aparecer designa o domínio dos fenômenos e o transcendental ser designa o domínio dos entes, por exemplo.

Isso pareceria destruir a noção mesma de transcendentalidade, que pressupõe um domínio único da realidade. Essa conseqüência, entretanto, não se dá, pois por um lado a realidade não é primordialmente um domínio de objetos e segundo porque o reconhecimento dos seis domínios de objetos próprios aos transcendentais não impede a existência de um domínio unificado de coisas reais.

A resposta que segue é mais detalhada que aquela dada no post original e por isso será dada em duas partes. Agora vou me concentrar em analisar o que seja a realidade e no próximo post explicarei de que modo há um domínio único de coisas reais.

A realidade não é um domínio de objetos, pois a realidade é expressa não inicialmente pelo adjetivo "real", mas pelo advérbio "realmente". Y é realmente x, quando ser x lhe pertence, é um caráter seu. É apenas por x pertencer a y que ele pode ser a base para outras determinações de y, pois só nesse caso ele é de y.

Toda determinação real, portanto, é a determinação real de alguma coisa. A essa remissão de toda realidade a alguma coisa dei o nome de o caráter intencional da realidade.

Mas toda determinação pode ela mesma ser o “suporte” de outras determinações. Por exemplo, podemos dizer “esse ser humano é bacana e genial”, mas se trocássemos “ser humano” por “mamífero” a frase não teria mais sentido, pois ser bacana e genial são determinações que convém a ela enquanto pessoa e não enquanto mamífero. Ao ser a base de outras características, uma determinação é responsável pela sua realidade, e podemos por siso falar também no caráter constitutivo da realidade.

A realidade é perpassada por essa dualidade entre a intencionalidade e a constituição. Essa dualidade é o que é responsável pela ambigüidade no tratamento dos transcendentais, que ora são vistos como determinações ultragerais e ora são vistos como domínio de objetos.

Um transcendental determina seu objeto de uma maneira especial, pois de fato nada é dito de um objeto quando se diz que ele é um objeto da consciência ou um ser. Essas determinações são completamente vazias por si sós. Mas elas também nunca vêm sozinhas: algo é objeto da consciência por alguma percepção, vontade, lembrança imaginação etc... e algo é um ser neste ou naquele modo de ser. Os transcendentais são, portanto as formas de determinação das coisas.

Toda determinação, contudo, é determinação de algo e possui um suporte em outra determinação. Isso nos leva a postular para cada determinação uma série de outras determinações. Considere então uma determinação que fosse um suporte último para todas as outras determinações. Em última instância, seria por causa desta determinação que a coisa determinada poderia ter determinação alguma. Essa determinação determinaria o objeto de uma maneira completamente vazia, mas seria a base de toda outra determinação. Ou seja, ela seria justamente uma forma geral de determinação, um transcendental.

Desse modo vemos que toda transcendental é biface: enquanto intenção ele é uma forma geral de determinação, mas enquanto constituição ele é uma determinação que é suporte último de todas as outras determinações. Mas essa ambigüidade não pertence também à realidade enquanto tal? Toda determinação não pretende ser uma determinação real de uma realidade? Desse modo vemos que os transcendentais são os modos concretos da realidade.

Desfazendo a confusão - I

Quando comecei deste blog, eu disse que ia primeiro apenas apresentar alguns conceitos básicos do meu sistema. Acontece que nos dois últimos meses, como vocês devem ter visto, um destes conceitos, o conceito de "transcendental" mudou bastante para mim. De fato, eu apresentei aqui três significados diversos do transcendental:

A) No post A Dúvida Radical, apresentei o transcendental como um conceito que abarca toda a realidade. Ele foi introduzido como um elemento central da dúvida radical: para que se duvide de tudo é preciso que seja possível reunir todas as minhas crenças num todo que seja duvidado. O objeto total das minhas crenças é a realidade. Se eu possuo um conceito transcendental, eu possuo um conceito que abarca toda a realidade. Posso então realizar uma suspensão universal de juízo suspendendo todo juízo sobre tudo que cai sob o universal.

B) Essa concepção de transcendental se manteve até o post Os Conceitos Transcendentais, onde eu tratei do que confere aos conceitos transcendentais sua ultrageneralidade. Eu rejeitei a explicação implícita na minha definição inicial pois dizer que um conceito é transcendental por ser circular: dizer que um conceito é transcendental por se aplicar a toda e qualquer coisa apenas conduz todos os conceitos de volta ao conceito de coisa, sem explicara ultrageneralidade e transcendentalidade deste conceito.

Além disso, eu mostrei que a minha interpretação original da transcendentalidade não poderia se sustentar uma vez que se admitisse que os transcendentais são interligados por deduções transcendentais. Uma dedução transcendental mostra que o uso ativo de um conceito x implica no uso (passivo) de outro conceito y. Dessa maneira se três conceitos são ligados por um par de deduções, de modo que o uso ativo de x implica o uso passivo de y e o uso ativo de y implica o uso passivo de z, não havia garantia alguma de que todo uso ativo de x caísse sob o conceito z. Assim haviam coisas que eram x mas não eram z, logo z teria uma extensão menor que x, logo z não poderia ser um transcendental.

A solução que dei para isso era o seguinte: existe uma pressuposição natural em favor do uso ativo dos conceitos. Assim quando há um uso passivo de um conceito, geralmente há também um uso ativo dele: em geral, uma percepção é percepção de um fenômeno real e um fenômeno é a manifestação de um ser real. É um erro pensar que a ultrageneralidade do conceito transcendental é a universalidade de uma proposição do tipo "Todos os gansos são brancos", pois mesmo se encontramos exceções ao transcendental, a crença na sua ultrageneralidade permanece inabalada.

Com isso, a compreensão do que seja um transcendental mudou: ele não é mais um conceito que se aplica a toda e qualquer coisa, mas uma pressuposição que está suposto em toda determinação de toda coisa. Isso pode parecer transformar o transcendental em algo subjetivo, numa pressuposição que nós fazemos, mas esse não é o caso: existe uma pressuposição natural subjetiva de incluir todo objeto sob o domínio transcendental, mas correspondendo a essa pressuposição também há o caráter objetivo que existe em quase todos os objetos. A conexão dos transcendentais num sistema mostra que a pressuposição de um deles leva à pressuposição de todos os outros.

A faxina continua amanhã.